domingo, 5 de agosto de 2007

SEMÂNTICA PERSECUTÓRIA (cont.19)

SERÁ QUE SE VALORIZA O QUE DEVE SER REPUDIADO?

O Arguido está a dar os passos da “velhice” castrense, a poucos anos da reserva, julga já nada ter a ganhar e muito pouco a perder. Mas o que é curioso, quiçá estranho é que apesar da idade e da debilidade conjuntural mantém viva a chama do dever ajuramentado, o fervor da fidelidade doada.

E talvez aqui se encontre a explicação para recusar recorrer e socorrer do dialecto da maledicência gratuita.

Se tiver de o fazer, fá-lo-á, com a devida vénia, de forma frontal e leal: cara a cara.

Entende que o insulto pelas costas é a arma do “cobarde”, do insólidamente “obediente”, do “surdina” incoativo que morde pela calada da noite, do “serventuário” oportunista que enquanto o superior tem poder cola-se a seu lado, servindo sob a “síndrome da represália”: quem sabe umasa milésimas na avaliação farão a diferença para a promoção ao posto seguinte? Ou a ultrapassagem para aqueles com quem concorre?

Estes, infelizmente em numero maior que o desejável, devotam uma serventia fingida, “servilista”, semeando para o superior aquilo que lhe interessa e este gosta de ouvir e calando ou arquivando as coisas indesejáveis.

Tudo isto com o fito de angariar encómios especiais.

E é este doentio e censurável comportamento, hoje em dia bem diagnosticado, em jargão de caserna identificado por lealdade “canina”, que em vez de ser combatido pela ética organizacional, pelo contrário é sumariamente agraciado.

O Arguido recusa ser assim, aliás combate quem assim se comporta.

Por isso berra contra quem assume esta conduta recalcitrante e reprovável, venha ela de onde vier e tenha ela a patente que tiver.

Corre no senso comum castrense uma velha e gasta ideia que o comandante é o “comandante”. A assimilação resultante é que tudo lhe é permitido.

Nada mais falso: para mim o comandante é o primeiro a dar o exemplo, ou devia ser…

(…)

Graças ao divino o Arguido cedo apanhou a vacina contra esta patologia.

Seria incapaz de se comportar, embora confesse já ter tido pesados dissabores por ousar, lealmente dizer a quem de direito o que em seu juízo deve ser dito.

Mas a realidade é bem diferente.

Alguns, em numero maior que o desejável, postam-se como se duma clique de serventuários se tratasse, sempre a fazer balanços de mérito e relevo, sempre à espera do próximo louvor e quando este tarda tudo fazem para saber o que se passa com a “preterição”, nem que para tal tenham de “basculhar” nas gavetas do superior.

O Arguido tem autoridade moral para os criticar porque diz e faz, sempre o disse e fez, de cabeça levantada e olhos nos olhos, subordinando-se à delicadeza relacional e à ética.

E fá-lo independentemente da qualidade e patente do destinatário, daí talvez a razão para a sua folha de serviços registar um pobre pecúlio de encómios.

Contudo, tem por verdade absoluta que se a sociedade, e especialmente os que nela exercem funções de liderança, valorizasse este comportamento e rejeitasse o execrável talvez quem sabe vivêssemos hoje num mundo mais humano, verdadeiro e encantador, e, não naquilo que a realidade parece ostentar: um cardápio de fingimento, oportunismo, influência e “cunha”.

Aproveita a circunstância para doar um comentário superlativo. Como se não bastasse o seu feitio, é dono duma formação maturada na crença na subordinação confiante e na interpretação concisa do dever de lealdade que, em criança, lhe inculcaram. Sim em criança, quando a sorte do destino ou a benção do Criador fez dele um LUSITO da Mocidade Portuguesa. Aqui, desde tenra idade, depressa aprendeu os valores da hierarquia, o culto da disciplina, o orgulho confiante no cumprimento de missões, para além do espírito de corpo, da camaradagem, o valor dos símbolos nacionais, e os primeiros arrepios de pele quando ouvia os acordes do Hino Nacional.

A sua memória inunda-se de vaidade nostálgica cada vez que recorda, apesar da na época ter apenas 9 anos de idade, um dos momentos ímpares da sua formação cultural e cívica, um facto que permanece lúcido e vivo como se tivesse ocorrido apenas ontem e que assim se manterá até ao derradeiro suspiro de vida: a honra de ter pessoalmente enquadrado – impecavelmente uniformizado com a camisa de zuarte verde, calção de fazenda castanho e barrete castanho escuro – a “guarda de honra” ao Exm.º Presidente do Conselho, na época o Professor Marcello Caetano, aquando da sua visita oficial a Moçambique no final da década de sessenta.

Tudo isto para reforçar que tudo o que diz (e sente) sai-lhe das entranhas da consciência e é mister ao dever de lealdade que desde gaiato aprendeu a acarinhar e que recusa alterar, ainda que sob chicote, apenas porque alguém se julga dono da infalibilidade.

Até já.

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