
O CONHECIMENTO DA SUA Ficha de Avaliação Individual (FAI), relativa a 31 de Maio de 2005
(extracto do Recurso Hierárquico)
(…)
Com efeito já nada parece surpreender – PELA NEGATIVA – o Recorrente.
A inarrável encenação que lhe foi creditada aquando da tomada de conhecimento da sua FAI é digna desse superlativo desabafo pessoal.
Para conferir verosimil interpretação, pede vénia, para, e por breves instantes, abandonar o formalismo e discursar na primeira pessoa.
Quem ousaria acreditar que um simples telefonema, ocorrido em 21 de Julho de 2005, cerca das 11 horas e 30 minutos, iria provocar uma cadeia de acontecimentos em cascata:
- Trim…., Trimm…., trimmm…
- Estou. Bom dia fala Major R…
- Ó R… é Maj S… liguei para te informar que deves ir, o mais depressa possível, ao gabinete do nosso Comandante pois ele quer dar-te conhecimento da tua avaliação.
- OK, irei já.
- Suspendi o que estava a fazer para me dirigir ao edificio do Comando.
- Chegado lá, como não vi ninguém à espera e porque lá dentro reinava um silêncio, pedi licença para entrar pronunciando o ritual e formalizado pedido de autorização.
- “SIM”, responde uma voz provinda do interior.
- Entro no gabinete, e quando me preparo para me portar na posição de sentido para receber o comentário ajustado à circunstância, só vejo o Comandante “SEM ABRIR A BOCA”, “COMPLETAMENTE ABÚLICO”, “MOSTRANDO NÃO FAZER QUALQUER MENÇÃO DE RESPONDER, DE FORMA REGULAMENTAR, AO MEU SENTIDO, SEM FAZER MENÇÃO SEQUER DE SE LEVANTAR”, “ESTENDER-ME UM CONJUNTO DE FOLHAS”.
- Que, pelo contado, sabia ser a minha FAI.
- Recebo a papelada e por instantes quedo-me hesitante, de pé, confrangido sem saber o que fazer, e muito menos dizer, prostrado em frente ao silenciado Comandante.
- Sem saber o que fazer: aprontava-me para a ler de pé e em sentido, à sua frente…!
- Este, interpretando o meu estado de confusão, aponta para uma cadeira duma mesa do lado, convidando a sentar-me.
- Ao mesmo tempo, apercebendo-se pelo meu gesto que não levava comigo nada para escrever, disse-me “TOME ESTA”, apontando com o dedo para uma caneta que, para o efeito, parecia estar na secretária.
- Foi portanto neste pesado, confrangido e cortante silêncio que me sentei para ler aquilo que rapidamente se iria tornar numa desagradável surpresa.
- Ou Talvez Não…!
- À medida que deixo escapar expressões faciais indicadoras do reagente desconforto e mal estar, e enquanto comparo, uma a uma, a avaliação dada pelo 1.º Avaliador e pelo 2.º Avaliador, noto a presença de “cruzes” na terceira coluna (reservada ao Comandante).
- A curiosidade inspirou-me a voltar ao princípio para confirmar o que os meus olhos pareciam recusar ver.
- Foi então que vi confirmada na íntegra uma presunção que, à já alguns dias, ecoava nos bastidores.
- No rumorejo da caserna (ao arrepio do dever de confidencialidade) constava, à boca cheia que, este ano – isto confirmado por um militar que desempenha funções próximas do comando – eram dois os Majores “FODIDOS” pelo Comandante.
- E o Signatário era UM DELES.
- Afinal os rumores batiam certo, pensei.
- Segundo o que os meus olhos viam, e a análise apurava, o Comandante resolveu INTERVIR PESSOALMENTE NA MINHA AVALIAÇÃO, COM O ÚNICO PROPÓSITO: BAIXAR A APRECIAÇÃO A MONTANTE CONFERIDA.
- Ou seja “FODER-ME” como se dizia subrepticiamente.
- Enquanto digeria a inconveniência e mal sabendo que o pior estava ainda para vir…
- Li e reli com cuidada atenção o “juízo” conferido pelos dois primeiros e “genuínos” Avaliadores.
- Ambos especialmente abonatórios.
- Mas rapidamente acedo ao inferno da PREPOTÊNCIA, ao começar a ler o juízo vertido pelo Comandante.
- Li, reli e tentei interpretar, palavra a palavra, soletrando-as intimamente, ao mesmo tempo que vislumbrava a verdadeira causa.
- O meu espírito dizia-me que, INDESCULPAVELMENTE, estava a ser sentenciado por um motivo exógeno à FAI.
- Um libelo conferido por um Juíz em Causa Própria.
- Parecia inacreditável, mas era verdade.
- Li-o, reli-o e multili-o até tomar consciência daquilo que o meu cérebro a todo o custo tentava negar.
- Por instantes ainda pensei na possibilidade de replicar, quem sabe para dizer que estava moral e processualmente enganado.
- Mas, recusei.
- Sem que com isso deixasse de me sentir na pele dum “réu” acabado de ser sentenciado, dum réu acabado de receber uma Nota de Culpa dum processo em que não fora ouvido e acusado dum delito que não cometera.
- Desisti da ideia de replicar mas não resisti de, entre dentes, proferir um abafado e dirigido “insulto”, enquanto assinava a Nota de Culpa, desculpe a FAI.
- Completamente indisposto e já “cego de raiva”, levanto-me, posto-me hirto em frente ao JUÍZ-COMANDANTE para, na posição de sentido, lhe entregar o Libelo, desculpe a FAI.
- Enquanto lhe estendo a mão com a FAI, e olhando-o directamente nos olhos, peço-lhe respeitosamente embora mesclado com tom ferido, licença para sair.
- Queria abandonar o mais rapidamente possível e ir depressa para o mais longe possível deste tribunal.
- “SIM”, respondeu-me de olhos cabisbaixos, recidindo e reincidindo na inconveniência processual.
- Não respondeu ao meu formal sentido.
- Nem sequer fez menção de se levantar.
- Confesso que ainda hesitei sobre a possibilidade de exigir o tratamento formal e regulamentar devido.
- O meu espírito ordenou que “CAGASSE” para o formalismo, fugisse a sete pés e me pusesse a léguas deste sítio inconveniente, desgaradável, belicoso.
- Por isso, ouvido o sim, rapidamente virei costas e saí apressadamente.
- Conservo na memória que, ainda dentro do gabinete, na minha cabeça já fervilhava a ideia de ripostar.
- Lembro-me ainda de ter atravessado apressadamente a Parada embriagado numa insaciável vontade de ler o RAMME (Regulamento de Avaliação).
- A consciência alimantada pela fúria fa razão impôs-me uma exigência: responder à PREPOTÊNCIA.
- Calar, seria PIOR DO QUE CONSENTIR.
- Calar, seria dar FORÇA E RACIONALIDADE AO AUTORITARISMO.
- Calar, seria ceder À DELINQUÊNCIA DA COBARDIA.
A reclamação tornou-se inevitável.
- (…)
Na verdade abandonou o local com o espírito enfurecido pois na sua conta-corrente não cabia tão dolente e injusta apreciação que a realidade factual não ostentava.
Só vislumbrava uma razão: TRATOU-SE DUMA RETALIAÇÃO.
O Comandante, através dum mecanismo unilateral, deferido e prepotente, aproveita a oportunidade que a lei lhe conferiu, não para me avaliar, mas antes para se “vingar”. Ferindo descaradamente o espírito do RAMME pois assentou a apreciação numa incidência exógena e deslocada do específico desempenho e real mérito.
O que, e quanto mais não seja, seria uma cobardia silenciar ou aceitar passivamente.
(…)
NOTA – Este recurso hierárquico é extensíssimo, contém 75 páginas. Por certo voltaremos a ele para içar novas “semânticas persecutórias”.
Até já
1 comentário:
HUMMM...HUMMM...FICAMOS Á ESPERA DA CONTINUAÇÃO DESTE FOLHETIM...OU MELHOR DIZENDO DESTE RELATO QUE SERIA UM BOM ARGUMENTO PARA UM FILME ...PRESUPOSTAMENTE PASSADO, NA REPUBLICA DAS BANANAS!!!
SEMPRE ALERTA PARA NOVA SEMÂNTICA,
A SONHADORA
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