domingo, 25 de novembro de 2007

O HOMEM E A HISTÓRIA


DADA A IMPORTÂNCIA DO CIDADÃO, DOS SEU SIMBOLISMO HISTÓRICO, AQUI DEIXO EXCERTOS DUMA ENTREVISTA DADA PELO CORONEL JAIME NEVES AO CORREIO DA MANHÃ

Trinta e dois anos depois do 25 de Novembro, está desiludido com o que se passou até agora? Valeu a pena fazê-lo?


Confesso que estou desiludido. O País está mal. Estamos mal. Mas não estou arrependido, isso não. Não foi para isto que fizemos o 25 de Novembro. Mas voltava a fazer o 25 de Novembro. De resto, eu também fiz o 25 de Abril convicto. Eu vim de África em Dezembro de 1973. Sabia vagamente o que se passava e quando o Otelo me contactou eu disse-lhe logo que não valia a pena falar muito porque eu ia.

- Mas agora está desiludido porquê?


- A primeira grande desilusão começou logo a seguir ao 25 de Abril e até ao 25 de Novembro. Eu fiquei aqui em Lisboa com 500 homens, com duas companhias de caçadores, porque não havia mais e eu corria a tudo.


- Fazia de pronto-socorro?


- Era.


- Foi um período complicado? De 1974 até 1975?


- Repare que o Regimento de Comandos foi criado em Julho de 1974. Deixaram que eu chamasse 300 convocados, pessoal que esteve comigo em África. Não imagina o que foi. Todos a falar de nós, muitos contra nós, políticos e não políticos. E eu andava ali a apagar incêndios. Mas sabe que os grandes responsáveis de tudo foram os militares esquerdistas, os comunas, como nós lhes chamávamos.

- Tentaram saneá-lo do Regimento de Comandos pelo menos uma vez.


- Foram dezassete. Eram bons. Dezasseis furriéis e um alferes. Numa noite tomaram conta dos soldados, fecharam o armamento todo e o Otelo, que chegou nessa noite de Cuba, foi ao Regimento. Falou um minuto e meio com dois deles e veio dizer que o “Jaiminho tinha perdido a confiança dos seus homens”.

- Essa frase ficou na história do PREC.


- Pois ficou. Sabe que os furriéis disseram-me depois que foram chamados ao Cunhal e que ele lhes garantiu todo o apoio caso o golpe falhasse.


- Três dias depois voltou.


- O Otelo viu que eles não queriam dar-lhe o Regimento. Era para o Partido Comunista. E chamou-me. Decidiu voltar a trás. E voltei. Choraram e tudo. Foi tudo preso. Mas o Otelo fez coisas inacreditáveis comigo. Apesar de saber que eu tinha a unidade mais forte do COPCON.


- Afinal quem é provocou o 25 de Novembro. O Partido Comunista? Ou o Grupo dos Nove?


- Não é a preto e branco. Houve movimentos de ambos os lados. A verdade está aí pelo meio. Não foi fácil. Foram tempos difíceis.


- E que opinião tem de Costa Gomes?


- Bem, sabe que às vezes não gosto de falar disso. Mas o general Costa Gomes, por exemplo, foi condecorado em 1973 em Angola pela PIDE. Águia de ouro.


- Foi uma desilusão para si? Todo o papel que teve no chamado PREC?


- Tudo. Não é por acaso que tinha como alcunha entre nós “o rolha”.


- Mas no 25 de Novembro ficou ao lado dele, respeitou a cadeia de comando que acabava no general Costa Gomes, chefe de Estado e das Forças Armadas?


- Fiquei. Ele é que estava lá. Lembro-me que no dia 24 de Novembro foi lá uma delegação de oficiais, entre os quais ia eu, e se não me seguravam eu matava-o. Atirei-me a ele, agarrei-lhe o pescoço, até o matava. Porque ele não queria assumir nada.


- A responsabilidade pelas operações militares?


- Não queria. Só dizia que os outros eram coitadinhos e por aí adiante.


- Costa Gomes estava hesitante?


- Cheio de medo. Cheio de medo. Era mesmo o “rolha”. Lembro-me daquele caso do capitão cubano, o Peralta, que estava preso no Hospital da Estrela. E um dia os grupos de extrema-esquerda fizeram lá uma manifestação para o soltarem. E o Costa Gomes chamou-me e disse-me, em nome da Junta de Salvação Nacional, para ir lá e afastar aquela gente dali. Deitaram-se no chão para não nos deixarem passar. Mas sabe que eu exigi ao Costa Gomes que me escreve a ordem. Que eu podia usar os meios necessários para a missão.


- Por escrito?


- Sim. E ele, ao fim de quinze minutos, lá escreveu que eu podia usar os meios necessários, todos, mas só de fossem mesmo precisos. Veja lá um general dar uma ordem destas a um militar.


- E não lhe disse nada por estar a exigir a ordem por escrito?


- Perguntou-se se eu não confiava na palavra dele. E eu disse-lhe que não.


- Voltando ao 25 de Novembro. Acha que tinha condições para ir mais longe e não ter ficado, digamos assim, com o trabalho a meio?


- Não vou esconder que eu ia mais longe.


- E porque foi para a reserva em 1981?


- Eu fui nomeado para o curso de oficiais generais. E disse ao Pedro Cardoso para me poupar. Ia para a reserva. Para o curso não ia. Porque a primeira vez que deixasse de lidar com tropas eu morria. O Pedro Cardoso saiu, entrou o Garcia dos Santos, eu fui de férias e esperei que me chamasse. Um dia soube que tinham nomeado já alguém para o Regimento de Comandos, o coronel Oliveira. O Garcia dos Santos mandou-me chamar e eu, que já sabia de tudo, pedi-lhe uma folha de 25 de linhas escrevi o meu pedido de passagem á reserva.


- Acabaram com os comandos em 1993 e anos depois, em 2002, voltaram a criá-los. Porquê?


- Olhe, ainda agora, em Beja, está decorrer a formação de uma companhia de comandos. Agora estão em Mafra. Já dizem que voltam para a Carregueira. Deixei o regimento em 1981, com boas instalações militares na Amadora. Fizeram para lá gabinetes, gastaram ali milhares de contos para instalar bidés para as senhoras. Eu acho que têm direito. Como os homens. Agora transformar um quartel genuíno com gabinetes, sinceramente. O futuro dos comandos não está definido. Mas são muito importantes. Veja o que fazem no Afeganistão, por exemplo. São uma tropa cada vez mais essencial nos tempos que correm e fundamentais para os objectivo estratégicos de Portugal.


- Quando foi do 11 de Março o general Spínola tentou que o senhor aderisse?


- Tentou falar comigo ao meio-dia, já depois de ter havido a confusão toda. Eu dizia que quando fosse preciso só precisava de quatro horas para estar pronto. Não era fácil ter um Regimento de Comandos na Cintura Industrial, vigiado constantemente, com manifestações quase todos os dias. Só tivemos uma de apoio, feita pelo PS da Amadora, liderado por Andrade Neves, o primeiro presidente da Câmara da Amadora. Nem o PSD fez nada. Quando fui saneado telefonaram-me a dizer que era do PSD da Amadora. Eu perguntei quem era, nunca tinham falado comigo. Desligaram.


- E o Spínola? Como é que falou consigo?


- Eram onze e quinze da manhã de 11 de Março quando entrei no Regimento. Havia uma grande agitação no País. Está lá o Almeida Bruno e diz-me que o Spínola queria fazer uma intentona. Tens uma missão que já devia ter sido cumprida. Eu também não concordo, mas vê lá. Chamei os oficiais superiores, majores, capitães e pedi ao Bruno para repetir o que me tinha dito. Estava nessa altura a acontecer o ataque ao Ralis. Ouvimos uns tiroteios. E como eu tinha uma grande consideração pelo coronel Morgado, que era o comandante da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, agarrei no telefone e perguntei-lhe o que se passava.


- Uma grande confusão, não?


- Disse-me que tinha ido lá o Monge mas que a Cavalaria não saía. Pouco depois do meio-dia tocou-me o telefone e era o António Ramos a dizer-me que o “velho” queria falar comigo. E a conversa foi esta: “Ó Neves, então como é que vai a tua missão?”. E eu respondi-lhe: “Mal qual missão?”. E lá me falou no Bruno e no Monge e que queria meter-se no helicóptero e chegar a Lisboa à frente da Cavalaria. E eu perguntei-lhe: “Qual Cavalaria? A Cavalaria não saiu”. Diz-me o Spínola: “Não me digas que fui enganado”. E a minha resposta foi rápida: “Passa a vida a ser enganado”. Foi de helicóptero mas para Espanha.

4 comentários:

fotógrafa disse...

NTERESSANTE, SE QUER QUE LHE DIGA NÃO IMAGINAVA MUITO BEM, O QUE SE TINHA PASSADO...
FOI DITO MUITA COISA, MAS REALMENTE OS MEANDROS QUE ESTÃO PELO MEIO,EU NÃO TINHA MUITO CONHECIMENTO.
OBRIGADA PELO POST,POIS FIQUEI A SABER MELHOR ACERCA DO 25 DE NOVEMBRO.
UM RESTO DE BOM DOMINGO

fotógrafa disse...

Não sabia que havia tanta gente a sofrer de insónia....rssrrsrsrsrsr
Uma boa semana de trabalho e toda a sorte do mundo na 5ª.feira

Curiosa Qb disse...

Desvio-me do tema do post, mas gostaria informar sobre a

PETIÇÃO EM PROL DAS CRIANÇAS VÍTIMAS DE CRIMES SEXUAIS

Para estabelecimento de medidas sociais, administrativas, legais e judiciais, que realizem o dever de protecção do Estado em relação às crianças confiadas à guarda de instituições, assim como as que assegurem o respeito pelas necessidades especiais da criança vítima de crimes sexuais, testemunha em processo penal.

ASSINE e DIVULGE

COPIE O TEXTO DA PETIÇÃO E PUBLIQUE NO SEU BLOGUE – ao divulgar já está a ajudar.

http://www.petitiononline.com/criancas/petition.html

SILÊNCIO CULPADO disse...

Excelente. É bom avivar memórias e dar a conhecer o que não se conhece. Por acaso não tinha lido esta entrevista do Jaime Neves que é bem interessante.
Hoje publiquei no Notas Soltas & Ideias Tontas, blogue em que também participo, (http://notassoltasideiastontas.blogspot.com) um post com dados oficiais sobre situações que nos envergonham. Muito gostaria que desses a tua opinião.
Abraço