Ainda sou pequenino.
Comecei a escrever esta carta quando tinha 6 anos de idade.
Apesar de ser pequenino já percebo muito bem as coisas à minha volta e tenho muito orgulho no meu pai por ser um oficial do Quadro Permanente do Exército Português e por saber que doou a sua vida para nos defender a todos nós e para manter a integridade da nossa Pátria que tanto amamos.
Com ele brinco todos os dias mas noto que ele anda triste.
Não sei o motivo concreto da sua tristeza mas desconfio que tal se deve ao seu estado de espírito, que aliás tenta a todo o custo esconder-me. Julgo que a sua tristeza provém de duas razões convergentes, uma do foro moral e outra do sanitário. Ainda não conheço os pormenores dos preceitos da formalidade por isso falo na primeira pessoa do indicativo.
E com isso vou tentar concretizar uma denúncia pública.
Sei que a vida do meu pai tem sido pior do que o pior libelo.
Como cidadão e especialmente como militar sob cuja condição doou a vida à Pátria vejo-o ser tratado de forma indigna e desumana. Desrespeitam-no persistentemente, e persistentemente violam-lhe os mais elementares Direitos Militares e de Cidadania.
De quando em vez, dou por mim a perguntar aos meus irmãos mais velhos porque é que o Pai sofre tanto. A resposta deles é supra relevante, dizem-me que também eles, na minha idade, sentiram o que eu hoje sinto, pois raramente viam o pai enquanto cresceram, estava sempre em Lisboa a cumprir um deslocamento.
Embora sendo uma criança ainda, não percebo porque existe essa espécie de insanidade social, essa desorganização estrutural que o obriga a ter, com alta frequência, de prestar serviço longe do agregado familiar. Para tudo deverá haver uma explicação razoável, excepto para explicar a desorganização social crónica vigente, ou para atenuar a forma leviana como o meu pai tem sido ofendido.
Por considerar que a coisa já ultrapassou os limites do razoável, e o âmbito familiar, vou aproveitar a missiva para estender a minha denúncia a outras considerações subjectivas e objectivas que julgo pertinentes para servir de tradução ao debilitado e ofendido estado de alma do meu progenitor.
Com efeito, desde há alguns anos a esta parte que o meu pai tem vindo a ser directa ou indirectamente, e de forma progressiva, dorido pela (ir)responsabilidade pública, pela falta de humanismo dos serviços do Estado, pelo descarinho do Príncipe e ainda pela acção directa duma Chefia Militar tolerante com a prepotência e a injustiça, venerando a incompetência.
Esta teia da incompetência estendeu-se a todas estruturas e sub-estruturas do Poder e, contra a vontade do soberano, dum modo transversal, estilhaçou a dignidade da Nossa Comum Querida e Amada Pátria, transformando o inocente soberano numa Minoria, infeliz, injustiçada e institucionalmente indefensável.
E, nem que este desabafo se definhe num descosido monólogo, o que é o mais provável atendendo às rugas da experiência que vejo na cara do meu pai, e que sinto quando o beijo, o certo é que no meu pequeno cérebro e a minha limitada percepção, ainda que emocionalmente afectada pelas aberrações sofridas pela pessoa que tanto amo, paira a sensação de que a tentação da, e para a, ilicitude ultrapassou o normal e tolerável patamar da paciência individual.
E, mesmo sob a penúria da minha curta experiência de vida, já percebi que, anteriormente ao meu nascimento, existe uma Causa única e responsável pelos males que a nação padece e que, entre outros instrumentos, utiliza o estrutural facilitismo (radicalista e xenófobo) como ataque moral e material ao Brilhantismo do passado e da História duma das mais antigas e nobres nações, que tanto contributo deu, e tanto mérito granjeou, para a História Universal da Civilização.
Agora já fiz oito anos, mas nada mudou.
Segundo me apercebo a nossa Pátria-mãe está contaminada, espiritualmente poluída e fisicamente doente, muito doente mesmo.
1 comentário:
Pois é...infelizmente é esse sentimento de impotência que grande parte da nossa sociedade sente...
Quem tem o poder,é o dono e senhor dos cidadãos,que por mais honestos que sejam, nunca vêm recompensados os esforços,por serem membros correctos...numa sociedade, incorrecta...
Mas,o principal, nesta tua "estória"...é ter a certeza do pai,honesto, integro e amoroso,com que a familia pode contar! Isso não há nada nem ninguém que possa destruir, por mais malabarismos que façam...
O amor que um pai de familia, respeitoso e amoroso pode dar a seus filhos, é o exemplo, de nunca se deixar corromper, de se guiar sempre pela estrada da correção e patriotismo, que a sua estada na profissão que escolheu lhe ensinou a ter pela vida fora.
Um Santo e Feliz Natal, e com votos, que pelo menos pela familia...a forma de estar na vida seja bem diferente dos "senhores da guerra", que o tentam atropelar e torná-lo infeliz...
Lembre-se que se cumpre o seu propósito com o coração limpo e a alma livre...o mais, é só poeirada, que quando assentar, todas essas pessoas que hoje o tentam afundar, serão elas a se soterrarem nas cinzas...
Um abraço
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