segunda-feira, 17 de março de 2008

Curto Pavio V (continuação)



(...)

Tal classe dirigente que não olha a meios para atingir os fins subjugou-se, rendendo-se sem luta, aos pergaminhos dessa podre causalidade que contaminou a democracia e o seu sucedâneo valor de liberdade, transformando-a em libertinagem e arruaceirismo.

Revoltado com tudo isso, e para protestar contra essa encapotada causa, que todos os responsáveis fingem não ver, abandonei a participação, sem que com isso abdicasse de continuar a contribuir activamente com o meu íntimo quinhão de dever e responsabilidade: adoptei a abstenção consciente, para, deste modo individual, como manda o dever e a constituição, deixar de prestar vassalagem a essa causa que contamina a democracia e premeia a ilicitude, e, em concreto, contribuir com a sua cota de responsabilidade para sua decadência que se quer, e deseja, não ter de aguardar 48 anos.

O Meu Pai utiliza a abstenção como arma e retaliação para recusar legitimar o regime conivente que permite sustentar a maldade e que nada tem a ver com o sucedâneo prometido pelo golpe libertador. Com uma imperdoável e condenável passividade o governante moderno por negligência grosseira deixou-se “subornar” pela clubite intriguista que tomou as rédeas do poder para legitimar a maledicência.

Espero um dia seguir-lhe as pisadas porque hoje vigora em Portugal um conceito de liberdade que mais se parece com libertinagem, um conceito de democracia que mais se parece com um regabofe, onde o permissivo se sobrepõe ao coercivo, o oportunismo à legalidade, o arruaceirismo ao civismo, o privilégio ao direito.

Enquanto o direito de cidadania o impele à íntima contestação, a passividade institucional continua a ser manietada pelo rafeiro invisível. Por isso é que o Titular recusa honrá-lo com uma explicação coerente, responsável e credível, sobre as Grandes Questões Nacionais. Enquanto isso, o livre arbítrio permite-lhe vaguear pela estratosfera da incerteza e o que é curioso em tudo isto é que dando crédito à notícia, ou valorizando apenas a ganância revolucionada, parece que chega sempre ao mesmo destino, isto é a consagração duma (imoral num caso e aleatória no outro) espécie de inevitabilidade consuetudinada conferindo a ideia – perversa -, da metamorfose ter sido objectiva e particularmente concebida para patrocinar um desígnio específico: chanfrar a descolonização.

Tal finalidade exclusivista que o Estado se esforça por fazer parecer menos ingénua do que parece ter sido, não é sequer formalmente negada ou contrariada pela factualidade nem pelo formalismo e muito menos pelo intragável silêncio institucional. Ainda hoje, passadas mais de três décadas, continua a ser (por falta de reflexão e explicação acertada) gnósticamente indecifrável que tão ínclito e nacional desígnio pudesse ter sido consumado da forma tão volátil e frágil: sustentado em suspeitos circunstancialismos, erguido num formalismo nitidamente precipitado, suscitando uma encoberta e pouco incontida irreversibilidade histórica, consumado num ambiente opaco, debaixo duma tempestade revolucionária, num ambiente inequivocamente tendencial e provisório, sufragado por representantes puramente revolucionários e não legitimados (concebido por um governo provisório – não legitimado também -, signatado por ministros provisórios e por um provisório também presidente da República – também não legitimados -), enfim destapando a sensação de ter sido promulgado (juridicamente) à margem da legalidade e (politicamente) nas costas do soberano.

E como se tudo isto não bastasse paira no ar a sensação de ter sido consumado coercivamente, presenteando unicamente os movimentos armados (coincidentemente coincidentes com os citados na notícia), excluindo (inexplicavelmente) outros partidos e movimentos regionais.

À falta da já quase inexplicável explicação histórica e credível, o remanescente faz vingar o pecaminoso silêncio que, de quando em vez, é arremessado para ressuscitar acusações indefinidas.

Lamentavelmente, tão imponente momento histórico, que devia e merecia ser inequivocamente explicado e exorcizado deixa, incompreensivelmente, sustentar uma precaridade tendenciosa que dá asas a todas as interpretações (legítimas ou ilegítimas) incluindo a que me surpreendeu e que sustenta um nexo de causalidade duvidosa entre um procedimento nitidamente precipitado mas quiçá desculpável e o procedimento pecaminoso de precedente cumplicidade. Esta dúvida razoável que, mais do que seria desejável, confere à estruturante metamorfose uma periclitante tradução que fragiliza o preâmbulo constitucional, e mais do que isso, abre caminho aos maus tratos e ao preconceito, ambos congénitos, dados às duas mais propaladas conquistas revolucionadas: a liberdade e a democracia.

O silêncio, por vergonha ou preconceito, de algo que devia ser impermeável edificou o limbo da permeabilidade, reforçando a ideia que tal causa, que quero, desejo e para isso espero hoje estar a contribuir, ver definitivamente erradicada, foi oportunisticamente inoculada por operacionais e especialistas da arte de bem cavalgar a sela do poder que logo desataram, para tacticamente encobrir outras explicações, a conferir explicações de exclusivismos e atestados de paternidade a algo que é de Ninguém (ou melhor de Todos). Estes, para sufragar fins (comprometidos ou não) não hesitaram em, manipular, uma a uma, todas as benévolas conquistas, deixando escapulir um ténue remanescente da magnanimidade ofertada. E deste modo a democracia que devia ser um estado de alma nacional, rapidamente foi convertida numa dádiva de corajosos (ou delinquentes, de acordo com a notícia) e daí o tratamento dado, de jure e de facto, a valores que, a prática, faz reflectir o seu contrário.

A sensação que paira no ar, mais do que a evidência maltratada, é que tais substâncias (liberdade e autoridade), por decifração abusiva, são hoje elementos assanhados e, por isso mesmo, habilidosamente, manipulados para, quem sabe, conferir inevitabilidade ao evitável, e para, quem sabe, servir de álibi e biombo para o pecador (oportunista) e pecado (oportunismo), respectivamente.

Uma incestuosa dúvida, vá lá saber-se porquê, permite-se debilitar a essência de Abril como ainda desacreditar a vocação e qualidade ontológicas dos seus derivados valores: a liberdade e a democracia.

Uma e outra sofreram ao logo de três décadas um processo de corrosão gradual e irreversível que lhes ofuscou a proeminência.

Ambas são hoje abusivamente utilizadas para cumprir desígnios inconfessáveis, incluindo a obstrução à justiça (poder dum estado de direito).

Intrigado com tão óbvia conclusão, que afecta o meu estado de espírito, e a convite do Meu Pai, resolvi calcorrear o roteiro constitucional (que poucos conhecem, embora a todos diga respeito) e qual não foi o meu espanto quando descobri que, de forma estúpida, e especialmente inconstitucional, é a própria lei-mor quem incita à increpação. A interpretação literal do texto constitucional deixa-me boquiaberto e perplexo quanto à qualidade ontológica da liberdade concebida, a quem o máximo que posso solidarizar não passa da crença que aos portugueses é dada a liberdade para dizer que são livres. O que, mesmo que fosse o bastante, o que sinceramente não acreditamos, padece ainda de confirmação e de comprovação da incorruptibilidade de quem o diz.

Estupefacto, confuso, baralhado e espantado, porque acho que isso nem sequer é o essencial da questão, pois para ser-se livre não basta dizer-se que se o é (por muito que apregoe que sou um príncipe isso não faz de mim nem um descendente da família real, nem um futuro rei), acabei por ficar com o raciocínio amarrado, numa espécie de beco sem saída.

A constatação de tão ingénua vulnerabilidade fez-me desconfiar de tudo o resto.

Quanto a mim, o ímpio e ínclito valor da liberdade tem a sua sede noutros domínios muito para além do patamar cursivo. Julgo que para se ser e se sentir livre, mais do que poder dizê-lo, significa não apenas ter sensibilidade para aceitar tutelas “opressoras” (autoridade), como ainda e especialmente ter consciência da subalternidade do interesse e da vontade particular ao interesse comum, à lei geral e à moral curricular.

Tal definição de liberdade, precariamente instruída (sabe-se lá com que intenções?) permite ao oportunista manipular a oportunidade destilando do seu valor ontológico apenas a porção de significado que lhe permite efectuar e consumar o desvio preconceituoso, estrutural e quiçá congénito: a consequência não se fez rogada nem se fez esperar, tal como a autoridade é preconceituosamente confundida com autoritarismo, também a liberdade se cruza e confunde com esterqueiras, como o arruaceirismo, a libertinagem, a coacção institucional, o pessimismo estrutural, a indiferença, a pimbalheira, a imoralidade generalizada, uma espécie de censura instruída sob pretexto da liberdade de imprensa, a falta ou escassez de ética no relacionamento público e privado, a desconfiança, a usurpação de valores curriculares, o mercantilismo irrestrito, etc.

E foi com este negativo e débil estado de espírito que parti em busca de explicações para o mau tratamento que é dado ao outro pressuposto revolucionado: a democracia.

1 comentário:

fotógrafa disse...

Tudo o que se está a passar em Portugal, é falta de civismo, mas sobretudo muita falta de educação... de berço...a partir duma determinada altura,os pais deixaram de se preocupar de passar aos filhos os verdadeiros valores do respeito pelo outro...da educação(sem ser repressão)logo quando se vai crescendo sem valores...dá nisto, e depois quem é sacana(como muita gente infelizmente)nos cargos altos, o que é que faz?!?...toca de atingir os subordinados...pelos vistos no exército, é o que se passa(e não só)...
o que impera, é a lei do mais forte, mesmo que atropelando tudo e todos....
abraço