Atrevo-me a citar Spooner: "os homens devem antes e necessariamente conhecer os sentimentos, não menos que os objectos materiais e antes de conhecerem o sentido das palavras por meio das quais os descrevemos".
Seve este curtíssimo introito para insinuar que, tal como a ciência da Justiça retém como rerquisito essencial, "todo o homem deve abster-se de fazer sofrer outrém...".
Neste sentido e talvez porque hoje acordei com nostalgia talvez seja justo recordar uma velha amizade, infelizmente já extinta.
A História que aqui reproduzo está registada em documento formal, documeto este assinado por um tal de Major Rocha, aquele que na EPT litigou pelo direito dos militares do QP acederem ao regime jurídico do Estatuto do Trabalhador-Estudante: "...Corria o mês de Dezembro quando a EPT foi torpedeada com a mais horrível e indesejável notícia dos últimos anos: o suicídio do Sargento-Chefe ALBERTO.
A notícia da morte do Alberto, camarada e amigo de longos anos, companheiro de funções quando ambos enquadravam um pelotão de instrução, amigo de fartas horas de lazer e noitadas sem fim comuns a todos os homens de vinte e poucos anos, abalou todos aqueles que o conheciam e estimavam.
Por estes motivos (e por outros inconfesáveis), esteja ele onde estiver sei que nos perdoará por não termos ido, materialmente, ao seu funeral.
(...)
São muitas as razões, que ninguém ainda está capaz de diagnosticar, e que podem conduzir um homema tal extremo.
Mas tratando-se d eum militar de carreira, a poucos anos de passar à situação de reserva, devia içar em todos nós uma espcial, adicional e peculiar preocupação.
salvaguardando a confidencialidade e o dever de reserva adjacente a este cruel acontecimento, o Recorrente acha contudo ter o dever e o direito de estender um pouco mais a reflexão sobre a infelicidade que, conjunturalmente, recaiu sobre um grande amigo pessoal e camarada.
Poucos dias antes desta imprevisível notícia tivemos ambos, na companhia dum terceiro amigo comum, uma longa conversa onde debatemos coisas do passado, do futuro e, especialmente, do presente.
deu para ver e notar que o Alberto tinha o moral a zero, estava psicologicamente arrasado e emocionalmente perturbadíssimo.
Tudo fizemos para o moralizar.
Apoiámo-lo em todas as pré-decisões que adivinhava fazer, excepto numa que não prevíamos nem ele deixou escapar.
Mas no final, quando ele se retirou, pairava no ar uma estranha sensação, comum aos dois residentes, interpretamos ambos que o resultado dessa conversa soava a alarme, parecia-se com um pedido de ajuda.
De tal modo ficamos impressionados que decidimos por iniciativa própria fazer algo para tentar ajudar o infeliz amigo.
descortinamos uma solução, quem sabe, talvez pedir ajuda técnica e humana ao Dr. Rui de Sousa, médico-psiquiatra de ambos e Chefe do serviço de Psiquiatria do Hospital Militar do Porto.
Em vão.
Infelizmente o Alberto antecipou-se.
Dado o especial teor da conversa, o circunstancialismo que se lhe seguiu e, especialmente, o que ela representa, ambos (os sobreviventes) considerámo-nos "fiéis depositários" dos derradeiros desabafos e especiais preocupações que, em vida, atormentaram o Alberto e que a sua morte fez expiar..."
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
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3 comentários:
Triste relato o desta morte sem anuncio...anunciada!!!...
Nada há a dizer, senão sentir que alguém precisou de ajuda, mas ela chegou tarde de mais...
alguém que comete suicidio, tem que estar em profunda depressão e é uma pena, que por problemas que muitas vezes não damos muita importância, pensando que serão superados, haja sempre alguém que não tenha a fortaleza interior para os ultrapassar...
que dizer nesta hora de lembrança vossa?de saudade dum camarada que sucumbiu aos grilhões de senhores que não fazem ideia de quâo infelizes tornam, homens iguais a eles, e que simplesmente querem ver os seus direitos lado a lado com o dos seus superiores...
é triste e lamentável que instituições que se dizem de respeito, não saibam respeitar o SER de cada PESSOA!!!
Bem haja pelo post que aqui colocou, e que a memória desse camarada seja sempre bandeira içada em prol da JUSTIÇA!!!
abraço
Este Também Meu Camarada foi vorazmente perseguido pelo Dito Cujo (Aquele que não gosta de militares cultos, até os proibia de estudar!) que, tudo fez - ÀS ESCURAS E ÀS CLARAS - para o achincalhar, denotando uma inqualificável falta de humanismo por um ser Semelhante que teve o infortúnio de padecer de "doença crónica"..."
Eu estive lá, no funeral, e achei-o um momento duplamente triste... não só pq se ritualizava o adeus terreno a um bom homem mas tb pq nos feria o coração ver os assassinos presentes no sagrado acto.
Quando um homem bom e integro como o Sargento Chefe Alberto, ex-atleta, entretanto acometido de insuficiência crónica renal profunda, se vê de repente perseguido (em vez de apoiado, como antes) pelas chefias do quartel do Viso (a sua base) e dispara um tiro contra a própria cabeça, não há psicotismo suficiente que explique por si só tal acto. É óbvio que os chefes o induziram, o empurraram, para esse triste fim... e deviam ser sentados no banco dos réus dum qualquer tribunal minimamente decente.
Se o Sr General Xavier Matias, e amiguinhos, fossem sérvios talvez já tivessem montado um TPI para os julgar...
Quem esteve atento às palavras do sacerdote que presidiu às ezéquias compreendeu o desassossego e o sofrimento que o malogrado militar e amigo sentia e que tb era do conhecimento do próprio clérico católico.
Um dia estava eu com o Alberto em amena cavaqueira junto a uma japoneira que existe junto do edifício de comando do quartel e que nos presenteia com uma maravilhosa estirpe de flores de matizes mesclados. Naquele contexto que nem parece da EPT, ele disse-me: "... Cada vez que regresso da hemodiálise, onde muitas vezes desmaio, sinto-me ressuscitado e aprecio a extraordinária beleza de qualquer flor... as suas cores que parecem fictícias de tão belas"...
Deixamos que te matassem amigo. Carregamos essa colectiva culpa.
De uma maneira ou de outra, de forma mais ou menos "humana", temos o dever de vingar-te!... Perdoa-nos (uma vez que te afirmavas cristão) por mais este nosso defeito.
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